Às vezes – em meio a tantos reels que disparam dopamina infinita no meu cérebro – algumas histórias ou vídeos do Instagram trazem informações interessantes, e uma delas foi conhecer o efeito cobra.
Não sei se você já ouviu falar sobre esse efeito, mas ele vem de uma anedota histórica. Ou seja, não necessariamente ela é toda factual, mas a gente entende que parte dessa anedota tem história e outra parte também é um pouquinho de mito, um pouco de criação.
Segundo a anedota, na época em que o governo britânico tratava a Índia como um território colonial, o governo tinha uma preocupação com cobras venenosas. Então ele criou um programa onde pagava as pessoas que caçassem cobras venenosas e trouxessem até o governo, para que assim diminuísse o número de cobras venenosas naquela região.
No início o projeto foi um sucesso, porque de fato as pessoas começaram a caçar cobras, trazer ao governo e receber o seu dinheiro. Era uma relação de ganha-ganha, porque diminuía o número de cobras, que era um dos objetivos do governo, e as pessoas faziam um dinheirinho.
O ser humano é criativo e, obviamente, aprendeu a “jogar o jogo”. Algumas pessoas mais “empreendedoras” resolveram começar a criar cobras em cativeiro para que assim pudessem receber mais dinheiro do governo.
A quantidade de cobras voltou a aumentar, afinal estavam sendo criadas em cativeiro e as selvagens pararam de ser caçadas, o governo descobriu e cancelou o programa. Afinal, subsidiar a criação de cobras não era o objetivo da lei. Diminuir o número de cobras venenosas, era.
Isso, na minha opinião, se liga diretamente ao suporte técnico e suas métricas, porque quando criamos muitas vezes métricas visando incentivar um tipo de entrega, mas acaba criando outro problema. O ser humano vai sempre procurar uma maneira de se beneficiar daquela métrica e justificar que está trabalhando conforme ela pede, só que, ao mesmo tempo, pode estar criando novos “monstros”.
Quero falar aqui sobre cinco métricas que têm esse efeito cobra e como resolver cada uma delas.
1 – SLA de primeiro atendimento
Algumas ferramentas têm a opção de configurar SLAs distintos, um para primeiro atendimento e outro para resolução.
Ao basearmo-nos apenas em um SLA de primeiro atendimento, como métrica sozinha, pode ser perigoso, pois os analistas podem acabar enviando mensagens automáticas, ou à partir de modelos, marcando o chamado como “atendido” para ficar dentro da métrica quando, na verdade, não existiu um primeiro atendimento de verdade. Apenas uma resposta automática e nenhum retorno real entregue ao usuário.
O SLA fica em cem por cento, mas não existe de fato um atendimento acontecendo.
Uma maneira de resolver isso é diferenciar esse SLA de primeiro atendimento de uma atribuição real. Apenas no momento em que uma pessoa, de fato faz o primeiro estudo sobre o incidente, é que deve ser marcado como um primeiro atendimento.
Exemplo: se uma notificação é enviada dizendo que o chamado vai ser atendido, isso não deve ser considerado um atendimento, e sim uma etapa automática do sistema para confirmação do recebimento, ou a descrição de um processo dado ao usuário.
Apenas a atribuição de um responsável e uma mensagem escrita, de fato por uma pessoa deveria sinalizar o SLA de primeiro atendimento.
Outra opção é simplesmente não usar o SLA de primeiro atendimento para não gerar esse problema.
2 – FCR — First Call Resolution
Quando o FCR, ou resolução no primeiro atendimento, é analisado isoladamente, alguns problemas podem surgir.
Um técnico pode ficar numa sessão remota por horas mesmo sem saber como resolver, mandando mensagens e chamando pessoas para tentar ajudar – o que não é, necessariamente ruim, a não ser que o setor seja desenhado para funcionar dessa forma. Talvez ele resolva o incidente no primeiro atendimento, mas não vai refletir quantas pessoas trabalharam naquele chamado. Ou ainda pior, o time técnico começa a solucionar chamados com ações que não fazem sentido apenas para enriquecer a taxa de atendimentos resolvidos no primeiro contato.
Uma maneira de resolver isso é fazer uma interpretação conjunta entre o FCR e a reabertura de chamados.
Se aquele chamado foi resolvido no primeiro atendimento, mas foi reaberto, ele deveria ser anulado da lista de FCR. Ou então é preciso analisar quantos FCRs foram reabertos e quantos não foram, pois isso traz um número quantitativo de chamados de First Call Resolution e um número qualitativo de quantos destes FCR foram reabertos – isso permite ir até a raiz da qualidade dessas soluções.
Se o técnico resolveu no primeiro atendimento, ele precisa ter certeza de que o usuário lá na outra ponta valida e aprova aquela solução. Só assim temos, de fato, um atendimento resolvido no primeiro contato e com alta qualidade.
3 – Volume de chamados resolvidos
O volume de chamados resolvidos pode encorajar um comportamento destrutivo de times técnicos começarem a resolver apenas os chamados de menor complexidade, fazendo um “cherry picking”, escolhendo aquele chamado mais simples como reset de senha ou reconfigurar uma VPN, e deixando os chamados prioritários com impacto alto de lado para outras pessoas. O volume de soluções fica alto, mas o usuário lá na outra ponta não está feliz com o atendimento de seus chamados mais complexos e de igual ou maior importância para o negócio.
Para resolver isso existem duas opções.
A primeira seria atribuir chamados de forma automática, seja por categoria, descrição, complexidade ou por “round robin”, de forma aleatória, onde quem tiver com menos atendimentos vai receber os chamados.
A segunda seria gamificar o suporte, ou seja, definir uma regra de jogo onde chamados simples como reset de senha geram um ponto no volume total, e chamados que exijam análises mais aprofundadas ou que tenham complexidade maior gerem quinze pontos – são números aleatórios.
A tendência é que o time técnico olhe mais para os chamados complexos para bater a meta de volume baseada em pontuação.
4 – TMA — Tempo Médio de Atendimento
No tempo médio de atendimento, o time técnico sabe que tem uma janela definida, então o time vai tentar, ao máximo, encaixar o atendimento dentro daqueles dez minutos para manter a métrica verde – quantas vezes tua ligação com a operadora de telefonia móvel não caiu sozinha com o atendente te ligando em seguida para continuar o atendimento?
Olhar para o TMA e bonificar ou penalizar o técnico que não cumpre a média de forma isolada pode gerar um efeito negativo no suporte.
O TMA é melhor utilizado como uma ferramenta de “back office”, ou seja, para a liderança entender que tipo de time ou de técnico precisa de que tipo de treinamento, ou até para saber se é um momento de contratação.
Se a média exigida é de quinze minutos, mas todos os técnicos estão precisando de trinta, isso é um sinal.
O time técnico precisa saber que haverá auditorias aleatórias nas suas soluções para ser possível compreender a qualidade dos atendimentos.
O TMA deve servir para descobrir, por exemplo, se um técnico está demorando mais do que deveria para atender chamados de um tipo específico. O que pode indicar necessidade de treinamento ou de novas contratações.
5 – CSAT e pesquisa de satisfação
Quando o envio da pesquisa de satisfação é feito manualmente – operadoras de telefonia enviam só às vezes, por exemplo – ele pode gerar, também, o efeito cobra, porque os técnicos vão deixando de enviar a pesquisa de satisfação para as pessoas que eles sabem que talvez não estejam tão felizes com o atendimento.
A solução que proponho é de ativar o envio das pesquisas de satisfação de forma automática. Todos que abrem chamados, a partir do momento que são fechados, recebem a pesquisa. Ou pode-se usar uma taxa de setenta por cento, ou menos, dos chamados fechados receberem a pesquisa para não encher a caixa de e-mail das pessoas que pedem suporte, mas todos devem receber de forma automatizada.
Outra coisa importante é trazer perguntas um pouco mais abertas, além da nota de satisfação, como, por exemplo:
- o quão difícil foi resolver esse problema conosco?
- A sua requisição foi de fato resolvida? Você vai precisar entrar em contato de novo?
Esse tipo de pergunta traz mais insight sobre o atendimento.
Importante: não penalizar os técnicos unicamente por terem notas baixas. Estude e entenda o porquê daquela nota.
Às vezes pode ser uma intriga entre o usuário e o técnico, ou o usuário está avaliando algo que não reflete o esforço que o técnico teve em tentar trazer uma solução.
Um exemplo claro é quando o usuário não ficou satisfeito porque a TI não trocou uma lâmpada, algo que não é escopo do suporte. Quando se faz esse estudo, entende-se o porquê da nota e, a partir daí é possível até decidir se aquilo pode entrar ou não no catálogo de serviços.
Que outros tipos de métricas você entende que têm esse mesmo efeito cobra? Deixa nos comentários.

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